1. O que é especismo estrutural?

Quando falamos de violência contra animais, muita gente pensa em “maus-tratos”. As ciências sociais, porém, ajudam a enxergar algo mais fundo: o especismo estrutural.

Nas últimas décadas, a linguagem das ciências sociais brasileiras consolidou expressões como racismo estrutural, patriarcado, LGBTfobia estrutural. Elas indicam que não se trata apenas de preconceitos individuais, mas de modos de organização da sociedade inscritos em instituições, normas, políticas públicas, práticas econômicas e rotinas do cotidiano.

Falar em especismo estrutural é deslocar esse mesmo olhar analítico para as relações entre humanos e outros animais, como vêm fazendo autoras e autores vinculados ao veganismo e à justiça interespécies.

  1. Primeiro passo: o que é especismo?

Especismo é uma forma de hierarquização moral baseada na espécie.

Consiste em atribuir valor inferior, descartável ou instrumental a indivíduos não humanos exclusivamente porque pertencem a outra espécie, mesmo sendo seres sencientes, capazes de sofrer, sentir medo, prazer, vínculos e interesse em continuar vivos.

Nessa lógica, bois, galinhas, porcos, peixes e tantos outros animais são convertidos em matéria-prima, mercadoria, “proteína”, “insumo produtivo”, e não reconhecidos como sujeitos de uma vida própria. Expressões como “animal foi feito para isso” (comer, puxar carroça, ser usado em teste, servir de entretenimento) sintetizam esse regime de classificação.

  1. O que torna esse especismo “estrutural”?

O especismo não se restringe a atitudes pontuais de crueldade ou a ofensas explícitas.

Chamamos de especismo estrutural quando essa hierarquia entre espécies está:

• codificada em leis e regulamentos que tratam animais como propriedade, bens móveis, coisas;
• organizada em cadeias produtivas e mercados inteiros baseados na exploração sistemática de corpos animais;
• reforçada por políticas públicas, subsídios, incentivos fiscais e programas governamentais;
• normalizada por repertórios culturais, discursos científicos, materiais didáticos e meios de comunicação;
• espacializada em formas específicas de organizar o território, definir zonas de abate, confinamento, transporte e circulação.

Assim como no racismo estrutural, não é necessário que alguém se declare “especista” para que o sistema opere. A engrenagem já está montada e funciona de forma relativamente autônoma, reproduzindo a desigualdade entre grupos de seres vivos.

  1. Como o especismo estrutural se manifesta no cotidiano?

NA LINGUAGEM

O vocabulário cotidiano é um dispositivo central de naturalização:

• falar em “carne de primeira” e “carne de segunda” apaga o corpo e reduz o animal a uma gradação de produto;
• categorias como “gado de corte”, “frango de abate”, “animal de produção” transformam indivíduos em unidades industriais;
• o selo “testado em animais” aparece como informação técnica neutra, sem explicitar a violência envolvida.

A língua organiza um regime simbólico no qual certos corpos existem primordialmente como recursos.

NOS ESPAÇOS DA CIDADE

A disposição espacial também expressa o especismo estrutural.

Matadouros, granjas, confinamentos e laboratórios de experimentação são, em geral, deslocados para áreas periféricas, cercadas, invisibilizadas. São infraestruturas centrais para o funcionamento econômico, mas afastadas da experiência direta da maior parte da população.

Ao mesmo tempo, supermercados, açougues e restaurantes exibem apenas o produto final, embalado e higienizado, descolado de qualquer trajetória de sofrimento. O desenho urbano administra a visibilidade: torna discreta a violência e altamente visível o consumo.

NA ESCOLA E NAS POLÍTICAS PÚBLICAS

No campo educacional e nas políticas, o especismo estrutural aparece, por exemplo:

• na centralidade de produtos de origem animal na merenda escolar, sem debate ético ou ambiental;
• em livros didáticos que situam animais não humanos apenas como “recursos naturais”, “fontes de proteína”, “matéria-prima”;
• em campanhas institucionais que utilizam animais como mascotes ou metáforas, mas não como sujeitos com interesses próprios.

… e em diversas outras esferas da sociedade.

  1. Por que aproximar o debate de outras formas de opressão?

A noção de especismo estrutural não pretende estabelecer equivalências simples entre opressões nem hierarquizar sofrimentos.

O que se destaca é a existência de uma lógica recorrente nas formas de dominação:

• a produção de fronteiras entre vidas que “contam” e vidas que podem ser sacrificadas;
• a transformação de determinados corpos em coisas, recursos, mercadorias, capital;
• a construção de narrativas que justificam essa transformação como “natural”, “inevitável” ou “necessária”.

Sociedades que se habituam a ver milhões de animais explorados e mortos diariamente como se fossem objetos descartáveis aprendem, de forma silenciosa, que algumas existências são negociáveis. Historicamente, essa mesma gramática moral foi aplicada a populações negras, povos indígenas, pessoas pobres, migrantes e dissidências de gênero e sexualidade.

Reconhecer o especismo estrutural permite conectar lutas, entender como dispositivos de desumanização e dessubjetivação se articulam e produzir análises mais completas sobre a forma como o poder se organiza.

  1. Por que esse conceito importa para a Aliança Libertária Animal (ALA)?

Se o especismo fosse apenas uma soma de escolhas individuais, bastaria educar pessoas para que “gostassem mais de animais”.

Ao tratá-lo como estrutural, o foco se desloca:

• da moralidade isolada de indivíduos para a crítica de modelos de produção, consumo e ocupação do território;
• de decisões privadas para conflitos públicos, disputas de sentido e formulação de políticas;
• de “hábitos alimentares” para regimes de opressão que atravessam espécie, classe, raça, gênero e espaço.

Para a Aliança Libertária Animal (ALA), falar em especismo estrutural significa:

• nomear a engrenagem que normaliza a exploração sistemática de animais não humanos;
• inscrever a questão animal no campo da justiça social, ambiental e interespécies, e não apenas no plano de preferências individuais;
• afirmar a necessidade de práticas, pesquisas e ações políticas que desnaturalizem essa hierarquia e façam emergir outras formas de convivência entre humanos e demais animais.

Não se trata de um simples “afeto pelos animais”, mas de interrogar uma ordem social que converte vidas em coisas, corpos em recursos e sujeitos em mercadoria – e de produzir, teórica e praticamente, alternativas a esse modelo.

Para se aprofundar

ALMEIDA, Silvio. Racismo estrutural. 2. ed. São Paulo: Pólen, 2020. (Coleção Feminismos Plurais). Disponível em: https://sites.ufpe.br/enegrecer/wp-content/uploads/sites/146/2023/01/ALMEIDA-Silvio-Racismo-estrutural-Livro-2019.pdf

FRANCO, Annibal Gouvêa. O que é veganismo? Resistência sociocultural ao especismo estrutural e reconfiguração espacial. Aracê, v. 7, n. 9, p. e8166, 2025. DOI: 10.56238/arev7n9-183. Disponível em: https://periodicos.newsciencepubl.com/arace/article/view/8166

OLIVEIRA, Fabio A. G. Especismo estructural: los animales no humanos como un grupo oprimido. Revista Latinoamericana de Estudios Críticos Animales, v. 8, n. 2, p. 180–193, 2021. Disponível em: https://revistaleca.org/index.php/leca/article/view/48


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

2. O que é veganismo?